A morte do maranhense Mateus Sandyel da Costa Campos, de 24 anos, durante um combate na guerra entre Ucrânia e Rússia voltou a chamar atenção para a presença de brasileiros no conflito, muitos deles integrados à Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia, unidade militar oficial criada pelo governo ucraniano para recrutar combatentes estrangeiros. Além dos riscos inerentes aos confrontos, voluntários e familiares enfrentam dificuldades burocráticas após a morte em combate, já que o Governo Federal não custeia o traslado dos corpos ao Brasil. No caso de Mateus, o corpo permanece em uma área controlada por forças russas, o que pode impedir seu retorno ao Maranhão.

Natural de Açailândia, na Região Tocantina, Mateus teria morrido na última sexta-feira (31), segundo informações repassadas à família por brasileiros que lutavam ao seu lado. Até a publicação da reportagem que originou o caso, o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) ainda não havia confirmado oficialmente a morte.

A mãe do jovem, Diana Silva, afirmou que recebeu a notícia por meio de colegas do filho que atuavam no mesmo batalhão. “Eu só fiquei sabendo porque um colega teve a compaixão de me comunicar”, afirmou durante uma transmissão nas redes sociais.

Segundo ela, o corpo de Mateus permanece em uma região de mata considerada de alto risco, localizada em área sob controle das forças inimigas e constantemente atingida por bombardeios. As condições de segurança impedem, até o momento, qualquer operação de resgate.

A principal preocupação da família é conseguir que a morte seja oficialmente reconhecida pelas autoridades e obter a certidão de óbito. Diana também busca informações sobre a possibilidade de traslado do corpo para o Brasil, caso ele seja retirado da zona de combate.

Governo brasileiro não custeia traslado

Levantamento de O Imparcial mostra que um dos maiores obstáculos enfrentados pelas famílias de brasileiros mortos na guerra é justamente o retorno dos corpos ao país.

O Itamaraty reforça que não possui obrigação jurídica nem previsão orçamentária para custear o transporte de urnas funerárias, passagens ou qualquer despesa relacionada ao retorno de brasileiros que tenham ingressado voluntariamente em forças armadas estrangeiras.

Nesses casos, a assistência consular limita-se à emissão de documentos, como certidões, e à interlocução burocrática junto às autoridades locais.

Isso significa que, mesmo que o corpo de Mateus seja retirado da linha de frente, sua repatriação dependerá da família, de eventual apoio das autoridades ucranianas ou de iniciativas particulares, cenário que pode dificultar ou até inviabilizar o retorno ao Maranhão.

Outro entrave é o próprio resgate. Conforme relatos da família, o corpo estaria localizado a aproximadamente 30 quilômetros do batalhão ucraniano, em uma área dominada pelas forças russas. Enquanto a região permanecer sob intenso conflito, as próprias Forças Armadas da Ucrânia consideram inviável qualquer operação para recuperação dos restos mortais.

Maranhenses entre os brasileiros que lutam no conflito

Não existe um levantamento oficial indicando quantos maranhenses atuam atualmente na guerra entre Ucrânia e Rússia. O Itamaraty e o governo ucraniano não divulgam listas de combatentes estrangeiros por estado de origem.

Entretanto, ao menos dois casos envolvendo maranhenses ganharam repercussão nacional nos últimos meses.

Além de Mateus Sandyel, natural de Açailândia, está o caso de Rafael Paixão, de 29 anos, natural de Imperatriz. Integrante da 3ª Brigada de Assalto das forças ucranianas, ele teve a perna esquerda amputada após pisar em uma mina terrestre durante uma operação militar e buscou apoio das autoridades brasileiras para retornar ao país.

O Ministério das Relações Exteriores registra oficialmente 127 brasileiros mortos ou desaparecidos desde o início da guerra. Desse total, 35 mortes foram confirmadas pelos canais consulares, enquanto 92 brasileiros permanecem desaparecidos em áreas de combate, segundo notificações das autoridades ucranianas e russas.

Como brasileiros entram na guerra

Os brasileiros que decidem participar do conflito não atuam como mercenários independentes. Eles ingressam na Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia, unidade militar criada pelo governo ucraniano para receber voluntários estrangeiros.

Após o recrutamento, realizado principalmente pela internet ou por representações diplomáticas da Ucrânia na Europa, os voluntários assinam contratos oficiais com as Forças Armadas ucranianas e passam a receber o mesmo soldo, assistência médica e direitos concedidos aos militares do país.

Mateus Sandyel, por exemplo, foi recrutado quando trabalhava na Bélgica. Segundo a mãe, ele embarcou para a Ucrânia em 26 de março deste ano após receber a promessa de um bom salário e de uma bonificação pelo alistamento.

Ela contou que o filho acreditava permaneceria seis meses no país e retornaria ao Brasil ao fim do contrato.

Promessa de remuneração atrai voluntários

Um dos fatores que têm levado brasileiros à Ucrânia é a remuneração oferecida aos combatentes estrangeiros. De acordo com diretrizes da Legião Internacional e da plataforma oficial de recrutamento Join UA Army, o salário varia conforme o nível de risco da missão.

Durante o treinamento básico ou em atividades na retaguarda, os pagamentos giram entre US$ 550 e US$ 650 mensais, o equivalente a aproximadamente R$ 3 mil a R$ 3,6 mil.

Nas chamadas zonas de risco intermediário, onde os militares atuam em patrulhas e missões de apoio, os vencimentos variam entre US$ 1.100 e US$ 1.520 por mês, cerca de R$ 6,1 mil a R$ 8,5 mil.

Já os combatentes enviados diretamente para a linha de frente podem receber, conforme o número de dias efetivamente empregados em combate, cerca de US$ 6.520 mensais, aproximadamente R$ 36 mil, podendo alcançar US$ 10 mil por mês, valor superior a R$ 55 mil, em operações consideradas de altíssimo risco.

Além do soldo, o governo ucraniano prevê bônus por desempenho em combate e indenização aos familiares em caso de morte, estimada em quase R$ 2 milhões. No entanto, especialistas apontam que o recebimento desses recursos costuma enfrentar dificuldades burocráticas e financeiras em razão do estado de guerra.

Treinamento e ida para a linha de frente

Segundo Diana Silva, Mateus Sandyel recebeu cerca de quatro meses de treinamento antes de ser enviado para uma área de combate na Ucrânia. De acordo com a mãe, o jovem ainda estava em período de experiência quando foi deslocado para a linha de frente, decisão que, para ela, foi determinante para o desfecho da história.

A declaração mais contundente da mãe  feita recentemente, resume a indignação da família diante das circunstâncias em que o maranhense foi empregado no conflito. “Eu não imaginava que, enquanto ele ainda estava no período de experiência, já o colocariam na linha de frente. Como colocam um menino novo na linha de frente? Como fazem isso com uma pessoa que teve apenas quatro meses de treinamento?”, questionou.

Diana afirmou que o filho evitava compartilhar detalhes sobre os riscos da guerra para não preocupar a família. Segundo ela, as conversas eram voltadas ao cotidiano e aos planos para o retorno ao Brasil. “Meu filho me poupava de muitas notícias ruins. Quando falava comigo, era apenas sobre a nossa vida e o nosso cotidiano. Eu não tinha noção da realidade”, relatou.

A mãe também contou que, antes de seguir para a operação militar, Mateus teve o telefone recolhido, o que interrompeu completamente o contato com a família e aumentou sua angústia.

Segundo Diana, o contrato firmado pelo filho com as forças ucranianas estava próximo do fim e a expectativa da família era recebê-lo de volta ao Maranhão em poucas semanas. “Eu estava aguardando tanto o meu filho. Faltavam apenas dois meses para ele encerrar o contrato”, lamentou.

Enquanto a família aguarda a confirmação oficial da morte, permanece também a incerteza sobre o resgate do corpo. Caso a área onde Mateus caiu continue sob domínio das forças russas e em intenso combate, o jovem poderá integrar uma lista crescente de brasileiros cujos restos mortais permanecem na Ucrânia, sem previsão de repatriação, diante das limitações operacionais do conflito e da impossibilidade de custeio do traslado pelo governo brasileiro.